É verdade que o desejo é o cartão de visitas para um relacionamento, mas lembre-se: Não é com o cartão de visitas que desejamos fazer negócio, mas sim com as pessoas que o distribuem. O desejo é um start. É apenas uma sombra no pano transparente.

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A geração que tem por orgulho o slogan: “Nunca traia seus desejos” tem o mote mais cafona que esse mundo conseguiu produzir. E o mais interessante é que a maioria das gerações que chegaram no tão sonhado desejo absoluto ao prazer viveram pouco para registrar seu legados fracassados. Ficaram marcados na história mais como os “indecentes imorais” do que como  aqueles que falavam em nome da liberdade.

O desejo é o autor de muitas tragédias. Se você for pensar, todas as traições da história partem de um desejo incontrolável. Desculpem desapontá-los. O desejo pode financiar o amor, mas  não é o patrocinador oficial dos relacionamentos.

Para os marketeiros da ética do desejo resisti-lo é coisa de patetas sem esclarecimento. Quem decide ir contra esse ideal “carpe diem”, na cabeça deles, não pode ser feliz. Aí, que está o engano. A moral tem que residir no amor e não no desejo. Explico.

Suponha que seu sonho sempre tenha sido casar-se com alguém ruivo. Em algum lugar da sua cabeça, essa classificação de pessoas tem uma preferência afetiva bem mais apreciada pelo seus olhos e sentimentos. Você sente um desejo incontrolável e inexplicável por pessoas de cabelos avermelhados.

Em um determinado dia, você acaba encontrando uma pessoa dessas em uma ocasião qualquer. Seu coração, em resposta rápida ao estímulo hormonal, o deseja intensamente. Ele conta sobre sua descendência escocesa tradicional de ruivos e vocês tem certeza que aquilo ali é um recado do destino para ficarem juntos como uma cerveja gelada e um feriado prolongado. Os dois concordam em casar-se e começa alí um matrimônio.

Os dias passam e a falta que antes sentia é, nesse momento, cessada por completo. O desejo ruivista parece já não ser como o de outrora. Ter a seu companheiro já não lhe satisfaz nos seus desejos mais profundos.

Por um golpe do destino da vida, você chega para trabalhar e tem a  notícia que contrataram uma nova secretária. E dessa vez, trata-se de uma morena exuberantemente deslumbrante e cheia de artifícios que a tão sonhada esposa de cabelos ruborizados não possui.

A crise se instala. O desejo parece ter mudado de endereço e agora você já desassociou-se do sindicato de admiradores de cabelos vermelhos para migrar para um grupo de apreciadores de um bronze mais refinado.

A pergunta é: Porque, sem motivos prévios, você traiu o seus desejos iniciais e vê com certo entusiasmos o que antes não lhe chamava tanto a atenção ao ponto de relativizar os velhos sentimentos para se encontrar com novos desejos?

Bem, exatamente porque desejo é a falta do que não se tem. Nesse sentido, o desejo não é o que nos faz mais fiéis, leais e confiáveis. Reafirmo: O desejo é portanto, um elemento importante, mas não o que constrói um relacionamento firme.

Nesse contexto, estamos corretos em incentivar a todos  que se relacionem a partir de um ânsia pela satisfação diante de um desejo? Porque continuar com a ideia de seguir os nosso próprios desejos sem pensar no amanhã? Sem contar com ressalvas importantes ligadas ao comprometimento?

Antes de querer unir-se a alguém, é claro que desejou este alguém. E se desejou é porque ainda não o obtinha. O objeto de desejo não pode ser o que o define. No entanto, parece que o desejo não pode ser o que nos motiva a ficar juntos. O desejo não sustenta o relacionamento por completo.

Escolher o outro pelo simples apetite é um caminho bastante perigoso. Somos descaradamente insaciáveis e quando se trata de desejo e ele estará em constante falta. É por isso que estamos trocando cada dia mais de parceiros. Buscamos sempre a satisfação imediata.

O desejo pode residir naquilo que possuímos. O contentamento pode vir pelo cultivo do que nos foi conquistado. Prefiro pensar assim. Mantenho o desejo sempre naquilo que obtenho, desejando sim, outras coisas, desde que essas agreguem as que já possuo.